TIGblogs TIG | TIGblogs GROUP TIGBLOGS LOGIN SIGNUP
joseph's Friends


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa do jeito de uma tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo". E o monge se calou descabelado.

Manoel de Barros

December 17, 2007 | 6:50 PM Comments  0 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

ponto de ebulição

4º Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles



tempos aniversariantes, pensando e sentindo o aniversariar, a vida cíclica (mas nunca no mesmo lugar), as mudanças...

Há quem acredite em inferno astral. Eu, inclusive. Não sei definir e nem acho que seja possível, mas o que (se) passa e passou neste ano é uma confluência de re-visões, questionamentos e tentativas de definições tão intensa que às vezes parecia que eu ia estourar. É um borbulhar estranho, é quando o calor que traz esses movimentos atinge um grau suficiente para fazer tudo isso chegar à superfície. Calor latente. Sei que preciso borbulhar para mudar de fase. Para o que era líquido e denso atingir a leveza do vapor.

Eu, sempre água...

Curiosos movimentos.

Sei que tudo isso é efêmero, é fugaz. Cíclica que sou e que é a vida, logo logo o vapor se condensa
e eu, con-densa-da, busco novamente o calor latente para mudar para outra fase...

E, nos efêmeros movimentos, nas inconstâncias e nos ciclos, fica a busca por aprender a deixar as pétalas voarem, ser o deixar-de-ser...

November 16, 2007 | 8:06 PM Comments  1 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

é...

questões antropológicas. hehe =)

August 2, 2007 | 11:28 AM Comments  0 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

mudaram as estações...

e algo mudou, sim. Brasília está diferente. Não sei exatamente o que é, mas sinto-a diferente. Pela primeira vez nos meus dezoito anos de (con)vivência com esta cidade, percebo as marcas das mudanças nela. Julho, tempo de secas, queimadas, bocas e peles rachadas... Mas também tempo de belas cores no por-do-sol, ipês nas ruas, folhas no chão e árvores peladas, com sombras simplesmente fascinantes.

É interessante sentir a(s) Brasília(s) e seus tempos.

*

"É possível tocar a pele da cidade?"
Nicolas Behr

*

http://www.flickr.com/photos/lumolina/

July 14, 2007 | 2:23 PM Comments  0 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

you say you want a revolution...


July 6, 2007 | 8:14 PM Comments  1 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

são coisas.

"Agora o sr. veja. Eu não dou conta de saber o que é que vai sair desse serviço seu. Esse tanto de pergunta comprida sobre a vida e o entendimento da gente. Professor tem mistérios e o meu pensamento não chega lá. Eu já lhe disse, eu não tenho escola nenhuma. Vim lá de um fundo do sertão, e aqui mesmo é um canto do mundo. Eu não sei, são coisas. Pode que seja um negócio assim como uma reportagem. Uns escritos bonitos, sei lá, coisas da cidade. Muitas fotografias, aquele tribunal de palavra diferente. Coisa de jornal, eu não sei... Não sei ler. Agora, tem uma história que eu quero que o sr. me conte. Faça como se fosse a minha vez de perguntar. E esses escritos, qual é a verdade que tem neles? É coisa de crer? É fato? Porque por aqui vem esse povo cheio de prosa. E anda daqui e dali, pergunta e quer saber. O sr. sabe, não? Mas história deles é caso de rico. Aquilo de gente com nome de rua(...)"

June 23, 2007 | 8:18 AM Comments  2 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

efêmero...

Dize:
O vento do meu espírito
soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero se desfez.
E ficaste só tu, que és eterna ...

Cecília Meireles

June 13, 2007 | 9:19 PM Comments  1 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

inte(rve)nção

Foto tirada em algumas andanças.

Pleno centro do Recife. Como essa, existem outras intervenções pela cidade. Como "Qual é o preço da cabeça deste povo", que já coloquei aqui.

e aí?!

May 16, 2007 | 11:52 PM Comments  0 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Conoces Loesje?

www.loesje.org

May 6, 2007 | 9:11 PM Comments  0 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Do you know Loesje?

Inspiring!
www.loesje.org

May 6, 2007 | 9:05 PM Comments  1 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Epifanias

O que acontece quando a organização anterior não serve mais, aperta, sufoca...?

Lembro de um livro da Clarice Lispector que li no ano passado, "A Paixão Segundo G.H.". Recomendo, mas é preciso cuidar da sanidade mental ao lê-lo. Enfim, G.H passa por todo um processo de transformação, e entre várias outras coisas, ela perde o que chama de terceira perna - a "muleta" que muitas vezes usamos para nos apoiar - e aprendendo a andar com suas duas pernas. Ela percebe que a vida estava organizada de uma forma que não podia continuar, e ao se deparar com a necessidade de mudança, no meio de uma onda epifânica, se vê numa desorganização total. Precisa então, reconstruir, reorganizar-se, mas sem voltar ao que tinha anteriormente. Pois a "organização anterior" era como ela vivia, era o que precisava mudar.

Pois é, tenho pensado: quanto de coragem é necessário para...

• perceber, reconhecer e aceitar que o que existia antes não "vale" (no sentido de validade) mais?
• perceber que há mudanças e que a (des)organização em que se vivia anteriormente não serve mais e que é preciso desconstruir para ter uma nova organização?
• desprender-se de situações ou jeitos de viver, relacionar-se e fazer as coisas que podem não ser os melhores e mais saudáveis?
• buscar o desconhecido ou o reconhecimento das coisas? E para buscar novas belezas para o olhar?

Tive uma experiência que literalmente ilustra isso. Quando voltei (fisicamente pelo menos) de um mês e meio de viagem, eu não cabia mais no meu quarto. A sensação física era de sufoco, de estar apertada mesmo. Agonia, inquietude... A primeira providência que tomei, num impulso, foi desmontar a cama, tirar vários móveis, papéis, livros, roupas, de dentro, apagar um pouco das pinturas e tirar alguns desenhos das paredes. Ufa...

Algumas coisas não cabiam mais dentro do meu quarto e tampouco dentro de mim. Não tinha lugar mesmo, por mais que eu tentasse colocar dentro de uma gaveta, encaixar em algum lugar. Não cabia. Olhei aquilo, aquele meu movimento de tentar empurrar, forçar a coisa, mas não dava. Então pude ver o quanto isso tudo é simbólico.

É preciso saber ver o que não está dando certo, o que não está mais saudável e "let go". Isso não quer dizer um total desprendimento de "deixar pra lá", como foi o meu movimento seguinte. Há, é claro, uma alternativa: procurar um modo de transformar, curar, a coisa. Uma carta do Tarô que tirei certa vez me disse: "se você segurar firme em algum aspecto da sua vida que não está dando certo, você torna impossível a cura desse aspecto. Deixe que essa situação se cure, perceba a sua parte nessa cura ou permita que uma nova situação apareça".

Isso tudo envolve muita coragem, como coloquei nas perguntas. Acho que envolve muita ousadia também, e lembro de algo que já me repetiram algumas vezes marcantes: "você ousa perturbar o Universo?*" (*"do you dare to disturb the Universe?"). É preciso perturbar o seu próprio Universo, deixar que ele fique desorganizado, bagunçado como um quarto mesmo, para arrumar e reorganizar aos poucos...

March 23, 2007 | 1:05 AM Comments  4 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Desvelando...

Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho não for mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.

Manoel de Barros

O que acontece quando o mundo sai dos nossos olhos? Quando o que acreditávamos ser verdadeiro se mostra diferente? Ou quando estamos tão diferentes que o que existia antes passa a não fazer mais sentido?

O que acontece quando percebemos que aos poucos nos diminuímos, podamos, fechamos, prendemos, pelas próprias noções de realidades, responsabilidades, ades, ades...? E somos nós, e ninguém mais, responsáveis por isso, porque somos nós que de alguma forma escolhemos como nos colocamos nos espaços e nas relações.

Um exemplo pra sair do abstrato:

Passei uma semana em Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero, de Reisado, de Guerreiro, de Lapinhas, onde a fé está presente em cada casa, em cada rosto, em cada esquina. Conheci uma nova dimensão da fé, que foge das minhas limitadas palavras, mas que me fez deixar os pré-conceitos (que nada mais são do que a visão engessada da história ensinada nas escolas) na rodoviária. Por que não se permitir acreditar e sentir que há algo maior, mais forte e profundo do que a nossa percepção pode alcançar. Maior que pessoas e símbolos. Maior do que as pessoas que são símbolos também, como é o caso de Padim Ciço (com todo o respeito). Uma fé maior, das velhinhas que fazem os rosários, das pessoas que enchem as salas de promessas e ex-votos, dos que sobem o horto a pé ou de perna-de-pau e os que moram ao longo dele.

Bom, isso é uma coisa. Outro exemplo:

Também em Juazeiro, convivi com o Carroça de Mamulengos e a União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus, que fazem um trabalho maravilhoso no bairro João Cabral de uma forma integrada, envolvendo a comunidade para manter e fortalecer as tradições, gerar renda a partir de uma cooperativa, produzir alimentos em uma cozinha comunitária, cuidar da estrutura, da revitalização do parque ecológico e das árvores e flores do bairro.

É um trabalho lento, que começou há alguns anos, mas que já tem um efeito impressionante. Percebi a dimensão e a força que um trabalho comunitário feito de forma integrada pode ter. E eles querem fazer mais, ir além, ousar, envolver outras pessoas e outros lugares... "A gente tem que saber sonhar", me disseram, "se não a gente não vai a lugar algum".

Pois é. É isso. Esse pensamento me bateu de repente. E foi forte. Percebi que há muito, muito tempo eu não ousava sonhar com algo. Sonhar, assim, simplesmente. Sem romantizar, sem ser piegas e nem puxar pra uma questão conceitual. Sonhar e ponto. Mas como?! E por quê? Por que perdi essa capacidade, essa noção? Nós, que falamos tanto em "sonho que se sonha junto é realidade" esquecemos de sonhar?! Bom, falo pelo menos por mim... Eu esqueci! E essa percepção me assustou. Muito.

As coisas são simples, isso é fato. Nós, seres humanos, é que complicamos demais, todo mundo tá cansado de saber disso. No meu caso, eu me envolvi de uma forma com a minha própria noção (nociva) de responsabilidade e compromisso, que me enrolei, endureci. Demais. E até perdi um tanto da ternura... E, de repente, percebo duas dimensões "novas" na vida, que parecem grandes revelações, mas que na verdade são (ouso dizer) essenciais: fé e sonho.

Como é que pode?!

***

Ufa! Consegui escrever... Tem muitos assuntos ligados a isso, vou colocando aos poucos. É bom poder tirar de mim em forma de palavras! E receber em forma de idéias, comentários e respostas também! =)

March 23, 2007 | 1:00 AM Comments  2 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Ensaio de despedida

"Vou-me embora dessa terra
Vestida de Colombina
Volto pro meu sertão velho
Vou buscar minha menina
(...)

Vou fazer uma fantasia
Livre dessa cor fatal
Vou-me embora bem depressa
Pravoltar no carnaval."


("Ensaio de Despedida - Janice Japiassu)


É preciso saber voltar. E é difícil. Depois de quase um mês nos mundos que transitei enquanto andei por essas terras pernambucanas, preciso reencontrar o meu lugar. De certa forma é difícil reconhecer e admitir a mim mesma que apesar de amar, admirar e viver o que as terras daqui e outras terras me oferecem, o meu lugar é Brasília e a vida que estou construindo lá. Mas ao mesmo tempo, perceber isso dá um certo "alívio". Não é bem um alívio, na verdade é mais um pé no chão com tranqüilidade. Porque o meu mundo brasiliense não está desconectado do mundo daqui, das coisas daqui. E sinto parte do caminho que estou me propondo a traçar é justamente reforçar essa conexão, essa ponte.

Mas isso tudo ainda tá muito na intuição. As respostas gostam de vir aos poucos...

“Aprendi com o Recife
A fazer Pontes no mundo
Uma Ponte pro passado
Uma Ponte pro futuro
Uma Ponte pro presente
Entre seus claros-escuros...”


(“Pontes” - Janice Japissu

February 24, 2007 | 6:04 PM Comments  3 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

A náusea... e a flor?

Volto cinzenta e chuvosa pra casa. A cidade me invadiu, deu um nó nas minhas entranhas e no meu coração. A cidade e suas pessoas, suas ruas, seu trânsito. A cidade e sua pressa, seu desrespeito, sua falta de compreensão. E no meio disso tudo, a pergunta principal não é se há vida nessa selva de pedra, e sim que tipo de vida há nela.

"Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?"


As ruas do Recife são cobertas de lixo e cheiram a mijo. O mesmo Recife dos cartões postais, do famoso carnaval e das propagandas turísticas. É um contraste atrás de outro nesse mundo de concreto e asfalto. O governo que cuida das propagadas e atrações turísticas é o mesmo que descuida das estruturas urbanas básicas. As pessoas que sorriem, dançam e cantam no carnaval são as mesmas que fazem do Recife um lixão, sem a menor preocupação em cuidar da sua cidade ou cobrar dos seus governantes que façam isso também. Uma chuva de verão inunda o centro da cidade e as pessoas são forçadas a andar no meio da água suja, que por sinal é produto do lixo que é jogado todos os dias nas ruas.

"Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase."


O que a cidade faz com as pessoas? Essa foi a pergunta que me deu um soco no estômago quando vi uma cena em pleno centro recifense: uma senhora tomando banho na rua com a água que escoava dos prédios, e as pessoas passando ao seu redor como se aquilo não fosse nada demais. Outra cena absurda: um homem estirado no chão, com uma aparência terrível, como um morto, e sentado ao lado dele um casal namorando. Como isso é possível!? Como as pessoas convivem com situações e cenas como essas? Como isso não as incomoda, minimamente?

"Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal."
"

Sinto que em momentos como esse paira uma nuvem na minha cabeça, uma sombra. Fico taciturna mesmo, sem acreditar no ponto em que chegamos enquanto seres humanos. É evidente que o jeito que as pessoas se relacionam entre si e com o ambiente é insustentável. Isso não é nenhuma novidade. Também não é novidade que estamos recebendo “sinais” de que muita coisa está errada e algo deve ser feito. Mas até que ponto isso realmente chega até as pessoas? Até que ponto o que é feito mexe com as pessoas dentro da máquina da cidade?

"Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima."


São muitos sentimentos e muitos gritos embolados no didentro agora. Muito que não sai nessas palavras digitadas. E depois de um suspiro de cansaço fica a constante questão: e eu, o que faço?

***

OBS: " " do Drummond - "A Flor e a Náusea" - leia aqui

February 22, 2007 | 4:05 PM Comments  2 comments

Tags:


lumolina   lumolina Luísa Molina's TIGblog
Luísa Molina's profile

Brincante

Tenho percebido cada vez melhor as dimensões que as palavras “brincante” e “brincadeira” têm. O que antes para mim era uma vaga idéia, palavras relacionadas a festas e tradições populares, agora tem sentidos e significados muito mais profundos. Vendo de perto a relação dos brincantes – aquelas pessoas que festejam e fazem parte das tradições – com suas brincadeiras, entendo um pouco mais sobre o brilho e a energia genuínos que envolvem e encantam – tão presentes na cultura popular.

É justamente isso que há certo tempo tento entender: o que tem na cultura popular que mexe tanto com as pessoas, envolvendo-as em vários níveis, despertando impulsos, sensações, movimentos, gostos, lembranças... Um toque de tambor que faz o sangue correr mais rápido nas veias, uma história conhecida da infância encenada no mamulengo, uma dança da terra dos pais e avós, personagens presentes no nosso imaginário... Isso, que representa algo maior, com certeza, e muito mais.

Para mim, quando se trata de cultura popular, muita coisa está além das palavras e fica difícil explicar de uma forma concreta e objetiva, porque ainda está no nível das sensações. E é assim que percebo o brilho e a energia genuínos que mencionei anteriormente. É algo verdadeiro, puro, ainda muito distante da compreensão. Acho que isso é um dos elementos do “muito mais” que tem na cultura popular e que envolve tanto. E isso é a profundidade da relação do brincante com a sua brincadeira.

Aprendi muito sobre isso passando uns tempos na cidade de Tabajara, onde mora a família Salustiano, acompanhando as preparações do Maracatu Rural Piaba de Ouro. Percebi o quanto o brinquedo, que é o Maracatu, significa para seus brincantes, que passam noites em claro costurando vestidos e saias de baianas, bordando gola (a roupa) do caboclo de lança. Vi como trabalha a Associação dos Maracatus de Baque Solto (os Rurais), que providenciam tudo para que as pessoas do interior possam brincar, cuidando delas. Vi nos homens, mulheres, velhinhos e crianças que participam do maracatu o brilho de empolgação e alegria de brincar o carnaval. Ouvi histórias de como começou o Maracatu Rural e como as pessoas dedicam energia, alma e coração a isso.

Mestre Salustiano, depois de sair da Zona da Mata para morar na capital, foi chamado de doido, entre outros nomes, inúmeras vezes, como ele me contou. Passou todas as dificuldades possíveis e imagináveis, criou 15 filhos e mais alguns agregados, ensinando a tocar rabeca, brincar mamulengo, fazer verso de maracatu, dançar frevo e cavalo marinho. Vendeu seu caminhão para fazer o primeiro encontro de maracatus, quando só existiam algumas agremiações. Hoje existem mais de cem em Pernambuco, que se encontram na Casa da Rabeca do Brasil, espaço construído por Salú que virou referência no país inteiro.

A brincadeira é a verdade desses brincantes, e por isso tem esse brilho, essa energia envolvente, pura. É isso que sinto e é nisso que acredito. Conhecer de perto essas histórias, essa determinação e ver como as pessoas seguem as suas verdades tem sido inspirador, fortalecedor, e tem me ensinado muito.

February 14, 2007 | 2:53 PM Comments  1 comments

Tags:




joseph's Profile


Latest Posts
women and children

Monthly Archive
December 2004

Change Language


Friends
Luísa Molina


2752 views
Important Disclaimer