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joseph's Friends
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Ruína
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Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa do jeito de uma tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo". E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros
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| December 17, 2007 | 6:50 PM |
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Ruína
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Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa do jeito de uma tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo". E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros
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| December 17, 2007 | 6:50 PM |
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Ruína
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Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa do jeito de uma tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo". E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros
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| December 17, 2007 | 6:50 PM |
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ponto de ebulição
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4º Motivo da Rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Cecília Meireles
tempos aniversariantes, pensando e sentindo o aniversariar, a vida cíclica (mas nunca no mesmo lugar), as mudanças...
Há quem acredite em inferno astral. Eu, inclusive. Não sei definir e nem acho que seja possível, mas o que (se) passa e passou neste ano é uma confluência de re-visões, questionamentos e tentativas de definições tão intensa que às vezes parecia que eu ia estourar. É um borbulhar estranho, é quando o calor que traz esses movimentos atinge um grau suficiente para fazer tudo isso chegar à superfície. Calor latente. Sei que preciso borbulhar para mudar de fase. Para o que era líquido e denso atingir a leveza do vapor.
Eu, sempre água...
Curiosos movimentos.
Sei que tudo isso é efêmero, é fugaz. Cíclica que sou e que é a vida, logo logo o vapor se condensa
e eu, con-densa-da, busco novamente o calor latente para mudar para outra fase...
E, nos efêmeros movimentos, nas inconstâncias e nos ciclos, fica a busca por aprender a deixar as pétalas voarem, ser o deixar-de-ser...
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| November 16, 2007 | 8:06 PM |
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é...
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questões antropológicas. hehe =)
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| August 2, 2007 | 11:28 AM |
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mudaram as estações...
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e algo mudou, sim. Brasília está diferente. Não sei exatamente o que é, mas sinto-a diferente. Pela primeira vez nos meus dezoito anos de (con)vivência com esta cidade, percebo as marcas das mudanças nela. Julho, tempo de secas, queimadas, bocas e peles rachadas... Mas também tempo de belas cores no por-do-sol, ipês nas ruas, folhas no chão e árvores peladas, com sombras simplesmente fascinantes.
É interessante sentir a(s) Brasília(s) e seus tempos.
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"É possível tocar a pele da cidade?"
Nicolas Behr
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http://www.flickr.com/photos/lumolina/
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são coisas.
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"Agora o sr. veja. Eu não dou conta de saber o que é que vai sair desse serviço seu. Esse tanto de pergunta comprida sobre a vida e o entendimento da gente. Professor tem mistérios e o meu pensamento não chega lá. Eu já lhe disse, eu não tenho escola nenhuma. Vim lá de um fundo do sertão, e aqui mesmo é um canto do mundo. Eu não sei, são coisas. Pode que seja um negócio assim como uma reportagem. Uns escritos bonitos, sei lá, coisas da cidade. Muitas fotografias, aquele tribunal de palavra diferente. Coisa de jornal, eu não sei... Não sei ler. Agora, tem uma história que eu quero que o sr. me conte. Faça como se fosse a minha vez de perguntar. E esses escritos, qual é a verdade que tem neles? É coisa de crer? É fato? Porque por aqui vem esse povo cheio de prosa. E anda daqui e dali, pergunta e quer saber. O sr. sabe, não? Mas história deles é caso de rico. Aquilo de gente com nome de rua(...)"
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são coisas.
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"Agora o sr. veja. Eu não dou conta de saber o que é que vai sair desse serviço seu. Esse tanto de pergunta comprida sobre a vida e o entendimento da gente. Professor tem mistérios e o meu pensamento não chega lá. Eu já lhe disse, eu não tenho escola nenhuma. Vim lá de um fundo do sertão, e aqui mesmo é um canto do mundo. Eu não sei, são coisas. Pode que seja um negócio assim como uma reportagem. Uns escritos bonitos, sei lá, coisas da cidade. Muitas fotografias, aquele tribunal de palavra diferente. Coisa de jornal, eu não sei... Não sei ler. Agora, tem uma história que eu quero que o sr. me conte. Faça como se fosse a minha vez de perguntar. E esses escritos, qual é a verdade que tem neles? É coisa de crer? É fato? Porque por aqui vem esse povo cheio de prosa. E anda daqui e dali, pergunta e quer saber. O sr. sabe, não? Mas história deles é caso de rico. Aquilo de gente com nome de rua(...)"
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efêmero...
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Dize:
O vento do meu espírito
soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero se desfez.
E ficaste só tu, que és eterna ...
Cecília Meireles
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inte(rve)nção
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Foto tirada em algumas andanças.
Pleno centro do Recife. Como essa, existem outras intervenções pela cidade. Como "Qual é o preço da cabeça deste povo", que já coloquei aqui.
e aí?!
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Epifanias
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O que acontece quando a organização anterior não serve mais, aperta, sufoca...?
Lembro de um livro da Clarice Lispector que li no ano passado, "A Paixão Segundo G.H.". Recomendo, mas é preciso cuidar da sanidade mental ao lê-lo. Enfim, G.H passa por todo um processo de transformação, e entre várias outras coisas, ela perde o que chama de terceira perna - a "muleta" que muitas vezes usamos para nos apoiar - e aprendendo a andar com suas duas pernas. Ela percebe que a vida estava organizada de uma forma que não podia continuar, e ao se deparar com a necessidade de mudança, no meio de uma onda epifânica, se vê numa desorganização total. Precisa então, reconstruir, reorganizar-se, mas sem voltar ao que tinha anteriormente. Pois a "organização anterior" era como ela vivia, era o que precisava mudar.
Pois é, tenho pensado: quanto de coragem é necessário para...
• perceber, reconhecer e aceitar que o que existia antes não "vale" (no sentido de validade) mais?
• perceber que há mudanças e que a (des)organização em que se vivia anteriormente não serve mais e que é preciso desconstruir para ter uma nova organização?
• desprender-se de situações ou jeitos de viver, relacionar-se e fazer as coisas que podem não ser os melhores e mais saudáveis?
• buscar o desconhecido ou o reconhecimento das coisas? E para buscar novas belezas para o olhar?
Tive uma experiência que literalmente ilustra isso. Quando voltei (fisicamente pelo menos) de um mês e meio de viagem, eu não cabia mais no meu quarto. A sensação física era de sufoco, de estar apertada mesmo. Agonia, inquietude... A primeira providência que tomei, num impulso, foi desmontar a cama, tirar vários móveis, papéis, livros, roupas, de dentro, apagar um pouco das pinturas e tirar alguns desenhos das paredes. Ufa...
Algumas coisas não cabiam mais dentro do meu quarto e tampouco dentro de mim. Não tinha lugar mesmo, por mais que eu tentasse colocar dentro de uma gaveta, encaixar em algum lugar. Não cabia. Olhei aquilo, aquele meu movimento de tentar empurrar, forçar a coisa, mas não dava. Então pude ver o quanto isso tudo é simbólico.
É preciso saber ver o que não está dando certo, o que não está mais saudável e "let go". Isso não quer dizer um total desprendimento de "deixar pra lá", como foi o meu movimento seguinte. Há, é claro, uma alternativa: procurar um modo de transformar, curar, a coisa. Uma carta do Tarô que tirei certa vez me disse: "se você segurar firme em algum aspecto da sua vida que não está dando certo, você torna impossível a cura desse aspecto. Deixe que essa situação se cure, perceba a sua parte nessa cura ou permita que uma nova situação apareça".
Isso tudo envolve muita coragem, como coloquei nas perguntas. Acho que envolve muita ousadia também, e lembro de algo que já me repetiram algumas vezes marcantes: "você ousa perturbar o Universo?*" (*"do you dare to disturb the Universe?"). É preciso perturbar o seu próprio Universo, deixar que ele fique desorganizado, bagunçado como um quarto mesmo, para arrumar e reorganizar aos poucos...
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Epifanias
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O que acontece quando a organização anterior não serve mais, aperta, sufoca...?
Lembro de um livro da Clarice Lispector que li no ano passado, "A Paixão Segundo G.H.". Recomendo, mas é preciso cuidar da sanidade mental ao lê-lo. Enfim, G.H passa por todo um processo de transformação, e entre várias outras coisas, ela perde o que chama de terceira perna - a "muleta" que muitas vezes usamos para nos apoiar - e aprendendo a andar com suas duas pernas. Ela percebe que a vida estava organizada de uma forma que não podia continuar, e ao se deparar com a necessidade de mudança, no meio de uma onda epifânica, se vê numa desorganização total. Precisa então, reconstruir, reorganizar-se, mas sem voltar ao que tinha anteriormente. Pois a "organização anterior" era como ela vivia, era o que precisava mudar.
Pois é, tenho pensado: quanto de coragem é necessário para...
• perceber, reconhecer e aceitar que o que existia antes não "vale" (no sentido de validade) mais?
• perceber que há mudanças e que a (des)organização em que se vivia anteriormente não serve mais e que é preciso desconstruir para ter uma nova organização?
• desprender-se de situações ou jeitos de viver, relacionar-se e fazer as coisas que podem não ser os melhores e mais saudáveis?
• buscar o desconhecido ou o reconhecimento das coisas? E para buscar novas belezas para o olhar?
Tive uma experiência que literalmente ilustra isso. Quando voltei (fisicamente pelo menos) de um mês e meio de viagem, eu não cabia mais no meu quarto. A sensação física era de sufoco, de estar apertada mesmo. Agonia, inquietude... A primeira providência que tomei, num impulso, foi desmontar a cama, tirar vários móveis, papéis, livros, roupas, de dentro, apagar um pouco das pinturas e tirar alguns desenhos das paredes. Ufa...
Algumas coisas não cabiam mais dentro do meu quarto e tampouco dentro de mim. Não tinha lugar mesmo, por mais que eu tentasse colocar dentro de uma gaveta, encaixar em algum lugar. Não cabia. Olhei aquilo, aquele meu movimento de tentar empurrar, forçar a coisa, mas não dava. Então pude ver o quanto isso tudo é simbólico.
É preciso saber ver o que não está dando certo, o que não está mais saudável e "let go". Isso não quer dizer um total desprendimento de "deixar pra lá", como foi o meu movimento seguinte. Há, é claro, uma alternativa: procurar um modo de transformar, curar, a coisa. Uma carta do Tarô que tirei certa vez me disse: "se você segurar firme em algum aspecto da sua vida que não está dando certo, você torna impossível a cura desse aspecto. Deixe que essa situação se cure, perceba a sua parte nessa cura ou permita que uma nova situação apareça".
Isso tudo envolve muita coragem, como coloquei nas perguntas. Acho que envolve muita ousadia também, e lembro de algo que já me repetiram algumas vezes marcantes: "você ousa perturbar o Universo?*" (*"do you dare to disturb the Universe?"). É preciso perturbar o seu próprio Universo, deixar que ele fique desorganizado, bagunçado como um quarto mesmo, para arrumar e reorganizar aos poucos...
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